sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Aspectos subjetivos do HIV/AIDS em Idosos

Segundo o Ministério da Saúde, a taxa de contaminação por HIV/AIDS na população com mais de 50 anos de idade vem se alastrando quando comparada a outros grupos etários minimamente estabilizados. Recentemente, muitas matérias têm sido publicadas sobre o diagnóstico tardio e a busca por tratamento para HIV/AIDS, observando-se a discrepância entre os dados encontrados nos jovens adultos e idosos (Fonte: Folha de São Paulo). Estes têm em sete vezes aumentadas a probabilidade de busca tardia pelo sistema de saúde, acarretando no retardamento do diagnóstico e prejuízo conseqüente ao tratamento da doença.

Apresentado o cenário atual do HIV/AIDS em idosos e tendo em vista a preocupação em melhor atender às suas necessidades, buscar-se-á compreender tais achados sob o ponto de vista das particularidades subjetivas que tomam parte no processo do envelhecimento, enfocando os entraves na vivência da sexualidade como fator desencadeante da maior parte dos casos de contaminação nesta faixa etária.

O envelhecimento apesar de ser processo natural do desenvolvimento humano, implica em mutações importantes, que necessitam de acomodação. Para tanto, é uma necessidade vital, a mediação do subjetivo. Entendemos que para um envelhecer psiquicamente saudável, não se trata de recomeçar, estando aí muitas vezes a dificuldade, quando esta etapa torna-se quebra da continuidade existencial e fator traumatizante, em outras palavras perda de sentido! Recomeçar implicaria em desfazer-se das raízes constituídas e desconsiderar que o atravessamento deste período depende primordialmente das conquistas e saberes constituídos ao longo de todo o desenvolvimento maturacional.

É freqüente encontrarmos na terceira idade, a presença de conflitos ocasionados pelo descompasso entre o “ser” e o “fazer”, quando ao rever a própria história, o idoso encontra um longo passado que invariavelmente projeta o ainda não realizado, o tempo futuro que se encurta. O que em geral ocorre, é que psiquicamente, quando o envelhecer não é integrado ao domínio subjetivo, a percepção do não realizado se equipara a “falta” e o idoso passa a sofrer da sensação de não ter vivido.

Sob o ponto de vista das experiências pessoais, podemos dizer que todo fenômeno orgânico, como por exemplo, HIV/AIDS, ocupa um lugar na dimensão subjetiva e a depender do impacto causado, somos mobilizados em nossa identidade. Na terceira idade o impacto incide na amostra evidente da passagem do tempo que o corpo traz, revelando a finitude e a fragilidade dos seres humanos, em muitos casos nos distanciando sobremaneira da noção de corporeidade e temporalidade constituídas até então, aspectos estes, norteadores de nosso lugar no mundo.

No âmbito da sexualidade, o conflito do envelhecer pode ser observado através da maneira como o sujeito se relaciona consigo próprio e com a vida. Encontramos a presença de atitudes impulsivas, que remetem a prática sexual à via do desempenho como busca desenfreada pelo resgate da identidade temporariamente perdida, quando o sexo é vivido a partir da repetição do fazer. Desta maneira, a pessoa faz uso do corpo como objeto, acentuando a falta de cuidados e a perda do aproveitamento real da experiência. É comum a pessoa se relacionar com o corpo que tem e não com o corpo que é!

O acréscimo da terceira idade às populações de risco na contaminação do HIV/AIDS reflete o posicionamento do homem enquanto mero consumidor da vida e suas possibilidades. Da mesma maneira que a redução do fazer/produzir é sentida como perda da funcionalidade, o idoso pode experienciar com o declínio da eroticidade, a eminência de perda da própria sexualidade. As transformações da vida e do corpo passam a ser “visitas de um estranho” e o idoso tende a estabelecer relações destrutivas consigo próprio e com o mundo na impossibilidade de incorporar esta nova fase da vida.

Quando estas mudanças não podem ser alojadas na esfera total da personalidade e do nosso modo de ser, há a interdição de um viver criativo da sexualidade. Inúmeros descuidos, revelados pela não-aderência ao uso de preservativos e cuidados médicos em geral trazem agravantes a saúde física, sendo porta de entrada á contaminação do idoso. Ao invés de recursos facilitadores de uma atividade sexual saudável, as medidas preventivas (e paliativas) permanecem no imaginário como recursos de aprisionamento do ser.

Ao pensar no idoso com HIV/AIDS, torna-se preocupante a especificidade deste fator aliado a este momento de vida. As dificuldades de enfrentamento da patologia acentuam-se devido ao acréscimo de outras situações que se descortinam: atravessamento das particularidades sintomatológicas e infecções oportunistas, das rotinas médicas e medicamentosas, do impacto na relação conjugal/ familiar frente à lida com o preconceito e busca pela sobrevivência. Surgem com maior intensidade, os medos da morte e da dependência, reedições de temas freqüentes em nossa prática clínica com esta população, sendo fundamental para o idoso reencontrar-se consigo mesmo neste momento.


Fonte:Roberta de Siqueira Meloso - Psicóloga Clínica

Fonte: http://www.crinorte.org.br/artigos/visualizar.php?id=7

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